Só agora ela começava a assimilar o que havia acontecido. Seu marido a expulsara de casa. Oito anos de relacionamento terminaram em uma única noite. A incerteza total a aguardava, mas ela tinha sua filha ao seu lado, a quem precisava proteger e por quem valia a pena lutar. E parecia que o destino lhes enviara a primeira pessoa boa que já haviam conhecido. O ônibus começou a se mover, levando-as para longe de sua antiga vida. Pela janela, viam ruas familiares, lojas, a escola onde Lucía começaria o ensino fundamental no ano seguinte.
Agora tudo aquilo era passado. “Clara, a residência é longe?” perguntou Elena, ajeitando a caixa no assento ao lado dela. “Uns 20 minutos. Fica no parque industrial. Não é o bairro mais agradável.” Claro, mas você também não vai pagar muito. Cerca de 150 euros por mês se for com o bebê. Elena calculou mentalmente suas economias. Os 200 euros que tinha cobririam o primeiro mês e a alimentação básica. Se conseguisse um emprego, talvez conseguissem se virar até encontrarem algo melhor.
Lucía já estava quase dormindo de novo, encostada na mãe. Tinha sido um dia longo e difícil. Elena acariciou os cabelos enquanto olhava para a escuridão através da janela. Seus pensamentos estavam confusos. Ela tentava entender o que tinha acontecido, por que Carlos mudara tão repentinamente. Teria sido a sogra que o havia colocado contra ela? Ou haveria outro motivo? Talvez outra mulher. Esse pensamento pesava muito em seu coração, mas ela se obrigou a pensar logicamente. Não era hora para sentimentalismos.
Ela precisava se concentrar em conseguir um teto sobre a cabeça e comida para si e para a filha. "Olha, querida, vou te dizer uma coisa bem direta", interrompeu seus pensamentos. "Não se culpe e não fique remoendo o que aconteceu. Pense no que vai acontecer. Minha colega de quarto na residência estudantil, Tamara, que é professora aposentada, sempre diz: 'Não há mal que não traga algum bem'. Talvez seja verdade." O ônibus parou no semáforo e Elena viu seu reflexo na janela: rosto cansado, cabelo despenteado, olheiras profundas; ela não se reconheceu.
Onde estava aquela garota alegre que sonhava em ser pintora, que adorava caminhar na chuva e cantar em acampamentos? Nos últimos anos, ela havia sido uma sombra do que fora, vivendo entre o trabalho, a casa, a sogra e um constante sentimento de culpa por não ser boa o suficiente. "Vai ficar tudo bem", sussurrou, sem acreditar totalmente. O parque industrial as recebeu com luzes tênues e o cheiro de pão fresco. A padaria, um grande prédio de tijolos com chaminés, funcionava 24 horas por dia.