Carlos estava cansado do trabalho, sobrecarregado de dinheiro. Às vezes, perdia a paciência, mas se acalmava rapidamente e pedia desculpas. E então sua mãe quebrou o quadril e veio morar com eles. “Mamãe, para onde vamos?”, perguntou Lucía baixinho, erguendo os olhos assustados para Elena. A menina ainda não entendia o que estava acontecendo, mas pressentia que era algo terrível. Naquele instante, Elena sentiu algo se quebrar dentro de si. Sua angústia pela filha superou a própria humilhação; endireitou as costas e, com uma calma e dignidade que desconhecia, disse: “Está tudo bem, Carlos”.
Se foi essa a sua decisão, que assim seja, mas lembre-se deste momento. Ele viu algo vacilar no olhar dela. Talvez uma dúvida, mas a Sra. Pilar imediatamente colocou a mão no ombro dele, como se o estivesse empurrando. E Carlos voltou a ficar rígido e distante. "Não suporto ver você maltratar meu filho." De repente, a sogra sibilou. "Ele faz tudo por você e por ela", disse, acenando com a cabeça na direção de Lucía. "Ele trabalha dia e noite em três lugares diferentes."
E você? Comprando guloseimas para si mesma e tomando café com as amigas. Elena congelou, sem conseguir acreditar no que estava ouvindo — de que guloseimas e café ela estava falando? Suas únicas joias eram um par de brincos de prata que sua mãe lhe dera de aniversário e sua aliança de casamento. E a última vez que ela estivera em um café fora um mês atrás, na festa de aniversário de uma colega de trabalho, e ela saíra antes de todos os outros porque precisava buscar Lucía na casa de uma vizinha.
Dona Pilar, do que a senhora está falando? Que alvoroço! Elena olhou para o marido em busca de apoio, mas Carlos apenas murmurou algo sombrio. Não se faça de desentendida, a senhora sabe muito bem disso. Dona Pilar bufou. Ah, que assustador. Como se não tivéssemos visto outras pessoas como você. Acha que não podemos viver sem você? Meu Carlos é um partidão. Tem a Silvia, do terceiro andar, sempre perguntando por ele. E ela tem o próprio apartamento e o próprio carro, ao contrário das outras que vivem às custas dos outros.
Elena não respondeu. Sentia um cansaço tão profundo que parecia ter envelhecido dez anos num instante. Uma dor surda instalou-se em seu peito e suas têmporas latejavam. Discutir mais era inútil. Foi até o guarda-roupa e começou a tirar roupas. Os vestidinhos e macacões de Lucia, meias grossas e luvas, suéteres e um gorro. A menina a observava com olhos assustados, sem entender por que sua mãe estava colocando seu vestido favorito naquela caixa horrível. Elena rapidamente reuniu o essencial.
Os documentos, roupas quentes para Lucía, algumas de suas próprias roupas, remédios e o álbum de fotos em que vinha trabalhando desde o nascimento da filha — ela colocou tudo cuidadosamente por cima. A boneca de Lucía e alguns livros mal cabiam. "Lucía, querida, pegue todos os bichinhos de pelúcia que quiser", disse Elena o mais calmamente possível, embora por dentro estivesse fervendo de raiva só de pensar em dizer aquilo para a filha. Lucía olhou ao redor do seu canto do quarto, perplexa.
Uma coleção inteira de bichos de pelúcia a encarava com olhos de vidro. Ursos, coelhos, elefantes, cachorrinhos dados em aniversários, no Natal, por bom comportamento ou simplesmente porque sim. "Todos eles?", perguntou a menina baixinho. "Não, meu amor, só os seus favoritos. Buscaremos o resto depois." Essas palavras exigiram um esforço sobre-humano de Elena. Ela sabia que esse "depois" talvez nunca chegasse. Carlos andava de um lado para o outro, nervoso, olhando para o relógio, como se tivesse um compromisso importante e estivessem adiando.
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