Meu marido gritou: "Saia daqui!" A mãe dele riu. Na manhã seguinte, eles não podiam acreditar no que viam... "Mas quem você pensa que é?" "Arruma suas coisas e sai daqui", respondeu o marido, rispidamente, enquanto a sogra sorria maliciosamente por trás dele. Na manhã seguinte, quando ligaram a televisão, não acreditaram no que viram. Mas quem você pensa que é? "Pegue suas coisas e saia daqui!", gritou Carlos, pairando sobre Elena como uma nuvem de tempestade. Seus olhos, que até ontem a fitavam com ternura, agora brilhavam como relâmpagos. A figura robusta do marido, que antes inspirava segurança, agora parecia ameaçadora. Atrás de suas costas largas, pairava a Sra. Pilar, sua sogra, com os lábios finos cerrados num sorriso malicioso. Aquele sorriso dizia tudo. "Eu já avisei meu filho que você não era a mulher certa para ele." A pequena Lucía, de seis anos, agarrava-se à perna da mãe e soluçava silenciosamente, sem entender por que o pai gritava daquele jeito. Seu coelhinho de pelúcia favorito, gasto pelo tempo e pelo carinho da infância, pendia de sua mãozinha, quase tocando o chão. O rosto da menina, salpicado de sardas acima do narizinho arrebitado, contorceu-se de medo, e seus grandes olhos castanhos se encheram de lágrimas. O pequeno apartamento de dois quartos em um prédio dos anos 70 parecia apertado, e a presença da sogra, que havia se mudado temporariamente três meses antes após uma cirurgia no quadril, era uma pressão constante. Seus pertences haviam invadido o apartamento lenta, mas seguramente. O velho aparador com seus cristais lapidados na sala de estar, os sousplats de crochê nos braços do sofá, a coleção de estatuetas de porcelana na prateleira, as fotos emolduradas de parentes na parede. Elena frequentemente sentia o olhar de desaprovação da Sra. Pilar sobre si: o gaspacho tinha sal demais, a roupa não tinha sido estendida direito, ela estava mimando a criança. A sogra suspirava, franzia os lábios e começava longos discursos sobre administrar uma casa, criar filhos e respeitar o marido. "No nosso tempo, minha querida, não éramos tão liberais. O homem é o chefe da família, mas a mulher é o pescoço que a mantém unida." É preciso saber como se virar, e não de qualquer jeito. Mas hoje tudo era diferente. A Sra. Pilar não estava suspirando nem começando seus sermões habituais. Ela estava triunfante. "Carlos, por favor, o que houve?" Elena tentou fazer sua voz soar firme, mas ela tremia. "Somos uma família. Temos uma filha." Quase não havia espaço na pequena entrada com seu papel de parede floral desbotado. O velho espelho, comprado quando se mudaram, refletia o rosto abatido de Elena. "32 anos, mas pareço ter 40", costumava pensar de manhã, observando as finas rugas ao redor dos olhos e a ruga entre as sobrancelhas. Agora, naquele espelho, via uma mulher assustada, com os cabelos castanhos presos num rabo de cavalo desarrumado e os olhos vermelhos de tanto chorar. A tarde começara como qualquer outra. Ela voltara do trabalho na creche, buscara Lucía nas atividades extracurriculares e preparara o jantar. A menina desenhava em Elena, que estava na mesa da cozinha descascando batatas, quando a campainha tocou. Era Carlos, que só voltaria no dia seguinte. Ele estava trabalhando numa obra no exterior, em turnos de duas semanas fora e uma semana em casa. A alegria com o retorno inesperado do marido logo se transformou em ansiedade. O rosto de Carlos estava impassível. Ele mal deu um beijo na filha antes de se trancar no quarto com a mãe. Continua nos comentários

Carlos estava cansado do trabalho, sobrecarregado de dinheiro. Às vezes, perdia a paciência, mas se acalmava rapidamente e pedia desculpas. E então sua mãe quebrou o quadril e veio morar com eles. “Mamãe, para onde vamos?”, perguntou Lucía baixinho, erguendo os olhos assustados para Elena. A menina ainda não entendia o que estava acontecendo, mas pressentia que era algo terrível. Naquele instante, Elena sentiu algo se quebrar dentro de si. Sua angústia pela filha superou a própria humilhação; endireitou as costas e, com uma calma e dignidade que desconhecia, disse: “Está tudo bem, Carlos”.

Se foi essa a sua decisão, que assim seja, mas lembre-se deste momento. Ele viu algo vacilar no olhar dela. Talvez uma dúvida, mas a Sra. Pilar imediatamente colocou a mão no ombro dele, como se o estivesse empurrando. E Carlos voltou a ficar rígido e distante. "Não suporto ver você maltratar meu filho." De repente, a sogra sibilou. "Ele faz tudo por você e por ela", disse, acenando com a cabeça na direção de Lucía. "Ele trabalha dia e noite em três lugares diferentes."

E você? Comprando guloseimas para si mesma e tomando café com as amigas. Elena congelou, sem conseguir acreditar no que estava ouvindo — de que guloseimas e café ela estava falando? Suas únicas joias eram um par de brincos de prata que sua mãe lhe dera de aniversário e sua aliança de casamento. E a última vez que ela estivera em um café fora um mês atrás, na festa de aniversário de uma colega de trabalho, e ela saíra antes de todos os outros porque precisava buscar Lucía na casa de uma vizinha.

Dona Pilar, do que a senhora está falando? Que alvoroço! Elena olhou para o marido em busca de apoio, mas Carlos apenas murmurou algo sombrio. Não se faça de desentendida, a senhora sabe muito bem disso. Dona Pilar bufou. Ah, que assustador. Como se não tivéssemos visto outras pessoas como você. Acha que não podemos viver sem você? Meu Carlos é um partidão. Tem a Silvia, do terceiro andar, sempre perguntando por ele. E ela tem o próprio apartamento e o próprio carro, ao contrário das outras que vivem às custas dos outros.

Elena não respondeu. Sentia um cansaço tão profundo que parecia ter envelhecido dez anos num instante. Uma dor surda instalou-se em seu peito e suas têmporas latejavam. Discutir mais era inútil. Foi até o guarda-roupa e começou a tirar roupas. Os vestidinhos e macacões de Lucia, meias grossas e luvas, suéteres e um gorro. A menina a observava com olhos assustados, sem entender por que sua mãe estava colocando seu vestido favorito naquela caixa horrível. Elena rapidamente reuniu o essencial.

Os documentos, roupas quentes para Lucía, algumas de suas próprias roupas, remédios e o álbum de fotos em que vinha trabalhando desde o nascimento da filha — ela colocou tudo cuidadosamente por cima. A boneca de Lucía e alguns livros mal cabiam. "Lucía, querida, pegue todos os bichinhos de pelúcia que quiser", disse Elena o mais calmamente possível, embora por dentro estivesse fervendo de raiva só de pensar em dizer aquilo para a filha. Lucía olhou ao redor do seu canto do quarto, perplexa.

Uma coleção inteira de bichos de pelúcia a encarava com olhos de vidro. Ursos, coelhos, elefantes, cachorrinhos dados em aniversários, no Natal, por bom comportamento ou simplesmente porque sim. "Todos eles?", perguntou a menina baixinho. "Não, meu amor, só os seus favoritos. Buscaremos o resto depois." Essas palavras exigiram um esforço sobre-humano de Elena. Ela sabia que esse "depois" talvez nunca chegasse. Carlos andava de um lado para o outro, nervoso, olhando para o relógio, como se tivesse um compromisso importante e estivessem adiando.

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